O homem da pré-história, por não ter a linguagem em sua forma fonética e plena, gesticulava tanto, que criavam-se músculos e o diálogo parecia uma demonstração de desespero, um indizível apelo decorrente do analfabetismo. Entretanto, vivia-se livremente bárbaro, sem nenhum comprometimento com a moral, mesmo que esta se realizasse em orgias ou com muita carne. A ato de moralizar as coisas surgiu como uma interpretação de sentimentos e doenças patológicas( que veio do jardim do Eden) e da ignorância em ausentá-la ou tê-la, já que não podemos Ter nem Ser: somos uma máquina de perceber as coisas, e assim fragmentá-las o sentido.
Quando o homem criou a linguagem, ele descobriu uma coisa terrível dentro de si: a guerra do diálogo. Descobriu a falsificação do mundo, o sentido que ele nunca teve. O homem também se esforçou para suavizar o que hoje se vê prudentemente como uma civilização, cuja a essência é a dicotomia cultural, ou uma renúncia ao que nunca tivemos - A liberdade de mentir, falsificar, ser e desejar não ser. Até a nossa permissividade é calculada pelo instinto. Resta-nos a loucura, ou a nossa forma mais lúcida de olhar para o Rio de Janeiro e dizer - a política pré-histórica de nós todos, o pieguismo social de Arnaldo Jabosta e as novelinhas da Globo, as cariocas e suas entranhas - verdadeiras anestesias de massa cefálica. Enfim, resta-nos a linguagem - que foi algo que a gente roubou de Deus para se comunicar, para falsificar o sentido das coisas, para dizer aos traficantes que só existe um único mundo, embora os cientistas acreditem no universo. E eles nos retribuirão com um livro de carne e osso.
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