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| Mario e seu magnífico Corolla de corrida comprado em 60 meses |
É a prova que coisas legais não tem que necessariamente custar caro. Mas como a lei vigente diz que mais caro é "cool", é dos jogos, ou melhor, do software pago chamado de "payware" que vou falar hoje.
As novas plataformas de jogos existentes são um primor em flexibilidade de público, porém os maiores consumidores da área ainda são jovens de 15 à 22 anos. Composto de compradores que tem em sua grande maioria a mesada como unica fonte de renda que podem administrar, dinheiro que dificilmente passa de 100 reais. Um game de terceira linha custa 70 reais, um de segunda 90, 100 reais. Grandes lançamentos giram em torno dos 160 reais. Um pirata custa entre 20 e 25 reais, e lideram de longe as vendas.
Jogos são caros, na verdade informática em geral é algo que não está ao alcance da maioria dos brasileiros. Mas porque tão caro? É simples: a maioria dos componentes, softwares, acessórios, periféricos é importado ou tem componentes trazidos da "gringa", conseqüência da defasagem tecnológica da indústria brasileira. E os impostos sobre todos os produtos que não são tupiniquins mas porventura foram vendidos aqui na terra brasilis são altíssimos. O ministério da economia justifica as altas taxas impostas falando em política protecionista, dizendo que reter as importações valoriza a indústria interna. Balela. É só mais um artifício para mascarar o atraso das nossas leis tributárias.
Mas nó ultimo sábado, dia 29/01/2011, lojistas paulistanos da área de acessórios de informática e games se mobilizaram numa atitude que escancarou a tributação exagerada e ridícula aplicada sobre a área. Os comerciantes venderam promocionalmente 3 lançamentos de jogos como se estes não pagasse impostos. Teve produto que ficou 70% mais barato.
A lei brasileira considera jogos eletrônicos de destinação doméstica como sendo "jogos de azar", e para desencorajar a prática, aplica taxas acumulativas que podem chegar a 124% do valor bruto do mercado. Isso sem contar ainda o lucro de quem vende. Mas peraê. Jogos de azar são caça-níqueis, não o meu Pro-Evolution Soccer novinho! Afinal meu playstation foi comprado em 33 prestações porque é muito caro devido aos impostos, mas ele não usa fichas, é só ligado na tomada e numa tela que ele funciona! Como qualquer jogo que eu rode nele pode ser considerado de azar?
É simples. A lei que reza que os tais jogos são de azar é o decreto-lei 6259 do código penal. Sabe de que ano? 1944. É simplesmente estarrecedor: uma lei de 60 anos comanda um segmento que só ganhou profusão no Brasil nos últimos 10 anos. É evidente a defasagem da legislação nesse caso. De forma que a lei deveria aplicar-se com o fechamento das lan-houses, por estarem desrespeitando a lei da ilegalidade dos bingos.
Uma imagem de Brasil atrasado e ridiculamente preso ao passado, me vem inevitavelmente a cabeça quando penso nisso. Situação muito semelhante acontece com carros. Na década de 80, nos últimos anos da ditadura militar, para forçar a defasada e endividada indústria nacional a crescer, os "sargentinhos" não reduziram impostos. Não incentivaram investimentos. Não atraíram dólares para o Brasil. Porque quando a gente quer mostrar serviço sem fazer esforço, a gente ataca só a parte mais visível de um problema. Os militares então fecharam as importações da indústria pesada. Isso incluía maquinário, chapas de aço e carros.
As montadoras brasileiras, sem ter onde produzir maquinário para modernizar seus produtos e sem poder também importar carros modernos não tiveram outra saída: continuaram produzindo veículos da década de 70 , levemente redesenhados, enquanto as matrizes americanas e européias resolviam o problema. Mas as matrizes também estavam em apuros: crises políticas e de petróleo levaram a indústria automobilística à loucura. Os carburadores (peças que servem para queimar a gasolina nos motores) foram substituídos por injeções eletrônicas, em nome da economia de combustível pelo mundo todo. No Brasil não: não havia tecnologia no país para produzir as peças da injeção, e importar tais peças era proibido. Em 1986 toda a linha de carros da Ford tinha injeção nos EUA, e boa parte dos modelos europeus tinham também. No Brasil, os carros Ford não tinham nem ar-condicionado nessa época, mas custavam quase o mesmo que um carro americano, por causa do custo altíssimo de produzilos com equipamento velho. Nesse meio tempo uma indústria automotiva muito forte se revelou. A japonesa, com destaque particularmente para uma marca. Uma marca que hoje é conhecida como Toyota.
No final dos anos 80 haviam modelos japoneses para todos os gostos. Todos eles muito bons e baratos. Mas um deles era barato, econômico e bonito. Um carro popular perfeito: o Corolla. Conquistou os americanos com estilo agradável e economia de combustível. Os europeus, com facilidade de manutenção. Mas nunca foi vendido em lugar nenhum como carro de luxo. Sempre foi um pequeno carro para a família, oferecendo qualidade e segurança. Mas luxo, não.
Em 1991 o viajado e escolado Fernado Collor assume o poder no Brasil. Com jeitão de nobre inglês, estudou no exterior. Andou nos carros de lá e queria vê-los aqui. O motorista brasileiro sabia que seu carro era defasado em relação aos lá de fora. E não aguentava mais saber que, segundo as palavras de Collor "o carro brasileiro é uma carroça". Trabalhar feito um animal pra ter uma carroça 0 km? Tá errado isso daí.
Lembram daquele papo que eu disse, de quando a gente quer mostrar serviço sem esforço fazer só o que todo mundo vai ver? Pronto. Collor não incentivou as montadoras por carros mais econômicos e saudáveis para a economia. Em sua mente de playboy gastador, pobre tem que andar de carroça. E quem puder ter, que traga do exterior. Collor abriu as importações. E os importados vieram.
Diversos modelos que lá fora eram vendidos como carros pequenos e médios chegaram ao Brasil como carrões de alto luxo. Rapidamente o Ford Taurus caiu nas graças dos empresários e latifundiários. Nos EUA ele era o preferido da policia e dos taxistas por ser barato.
Muitos outros vieram. Os japoneses chegaram em 1994 com o Honda Accord, popular mais vendido dos EUA em 1989 e o venderam no Brasil como sedã de luxo, quatro vezes mais caro que uma unidade vendida no Texas. E em 1995 os brasileiros enlouqueceram ao ver as modernas linhas de um certo modelo que de tão vendido no exterior chegava a ser mais barato que certas motos. Acertou quem pensou no Toyota Corolla.
Foi uma febre entre os ricaços. Se livraram rapidamente de seus Opalas e Tempras pelo japonesinho irado! Pagavam de bem dotados financeiramente e boçais com um carro feito para funcionários públicos lá fora. Bem a cara do brasileiro isso.
O que deveria ser feito pra que vivêssemos nas condições que europeus e americanos vivem é principalmente a reforma no legislativo. O Brasil tem uma constituição feita às pressas, contraditória e que muitas vezes atrasa mais do que adianta em alguma coisa. Devemos mudar o que está errado, para que ao menos tenhamos futuro, para continuar sendo a terra do amanhã que nunca chega pois tenho medo do dia em que o futuro do Brasil chegar. Valeu por ler e txau!
KELVIN
